
A discussão sobre a criação de uma arte genuinamente brasileira, com raízes e frutos autenticamente nacionais teve seu acme com a semana de arte moderna, em 1922, onde era duramente criticado qualquer vínculo com a chamada “cultura tradicional” hegemonicamente européia.
Apesar de todos os esforços, dentre os quais, Villa-Lobos foi, talvez, o mais eficiente em seus objetivos nacionalistas, a arte, a cultura brasileira, assim como o povo, a face étnico-social, é híbrida, e talvez não seja um exagero dizer, em seu DNA. Somos, culturalmente, um produto rico em manifestações espontâneas, rurais ou urbanas, efêmeras ou eternas, mas com uma característica singular, que não pode ser traduzida, senão com os próprios meios com que é produzida sua dinâmica estética, que se manifesta como tradição:
Tens, ás vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em que requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.
Mas sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poraçé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.
És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:
E em nostalgias e paixões consistes.
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 – 1918)
O soneto de Olavo Bilac traduz de maneira lírica as origens da música brasileira, mas, na verdade, simboliza o gene de toda manifestação cultural brasileira. Vale lembrar que Bilac era um nacionalista ativista, fundador da liga de defesa nacional, e fomentador de campanhas cívicas, como alfabetização nacional e serviço militar obrigatório.
Mesmo um nacionalista ferrenho como Heitor Villa-Lobos (1887-1959), assumiu e se beneficiou com nossas raízes européias, como é demonstrada com maestria em sua Suíte Popular Brasileira onde danças tradicionais européias se misturam ao choro, manifestação musical tipicamente carioca, como o próprio Villa-Lobos. Em sua malandragem, surge a figura do capadócio, aquele indivíduo de moral duvidosa que perambulava pela Lapa antiga, que Villa-Lobos homenageia no seu segundo prelúdio para violão.
Esse cenário descrito por Bilac nos reporta ao Brasil “bélle-epoque” dos fins do século dezenove, onde a influência francesa era sentida da arquitetura à literatura, das roupas à gastronomia. O Rio de Janeiro, capital da então recente república era o centro de todas as atenções e primeiro destino de todas as inovações do Velho Mundo.
E é no Rio de Janeiro que o samba, nascido na Bahia de todos os santos, ganha vulto de tradição, de instituição cultural, fonte de inúmeras variações.
Repertório de Sambas, Choros e Valsas...
Transição de séculos, tendências e estilos...